MAU FEITIO!!!...[12-09-2009] | António Eça de Queiroz
Há pessoas que ciclicamente têm muito mau feitio. Não um mau feitio dirigido a algo, com objectivo e mira técnica – nada disso. É algo profundo e escondido de razões a que só bem mais tarde conseguimos vislumbrar a raiz. E foi neste preparos animosos que quinta-feira às três da tarde me encontrei a procurar estacionamento na Rotunda da Boavista. Perto do local para onde ia vi uma aberta, pelo que dei a volta à praça encostando-me logo à direita para uma melhor abordagem ao landing final. Estou eu a iniciar uma manobra rápida – o subconsciente procurava assim escapar à sanha ajudante do arrumador fatal – e eis que começo ouvir o grasnar típico dum moina qualquer da Areosa ou do Bonfim: – Béinha, béinha, béinha à sua buntade!... De imediato comecei a rosnar a minha própria ladainha esconjuratória: – Ora a pôrra! Tenho eu carta há mais de trinta e cinco anos para vir agora você explicar-me aqui como é que se estaciona bem. Saia mas é daí de trás e não atrapalhe!..., no que recuei com decisão suficiente para que o dito arrumador levasse a sério o meu pedido. Estava eu a dar os últimos retoques para um correcto abandono da viatura quando oiço um rosnar que não era o meu: – Iiiiii!..., que mau feitio... Como estava de bala na câmara disparei sem avisar: – Péssimo! Um horror! E é assim de manhã à noite! Um silêncio atento mostrava-me apenas meia vitória. Mal saí do carro o ‘neca’ – que nada tinha de andrajoso ou de toxicodependente – intrometeu o que lhe restava de técnica: – E um cigarrinho, arranja-se?... Apanhado nas malhas corruptas da compaixão por aquele irmão de vício logo lhe disse com generosa condescendência: – Um cigarrinho arranja-se sim senhor… Então o ‘neca’, um sessentão magrela de vinho e cigarros, com bigodinho malandro e ar de quem vive de rendimento garantido, pergunta com ar meio divertido mal recebe o cigarro: – Então esse mau feitio… É mesmo de manhã à noite?... O sacana apanhara-me já desprevenido, e como não tinha nada de digno para lhe dizer dei uma gargalhada e sussurrei um audível «Cruzes, claro que não!...» – no que fui saudado por um sorriso cúmplice logo seguido de leve palmadinha nas costas… E foi assim que dei comigo a anatomizar o mau feitio do dia. Não havia nada de notável: tinha dormido bem, tratara com sucesso de alguns pendentes, almoçara sem engulhos e nem mesmo as notícias do Ministério da Propaganda me apoquentavam particularmente o momento. Então fez-se-me a luz no espírito: o Quim! Porque diabo é que uma selecção de futebol como a portuguesa tem um guarda-redes mediano como primeiro titular? Ainda por cima não é a primeira vez… Quim daria um aceitável segundo ou terceiro guarda-redes dum Eduardo, dum Daniel Ferreira, dum Nuno Espírito Santo, ou até dum Pedro Roma ou mesmo dum Hilário. Mas não! Suponho que esta questão deriva duma espécie de fórmula da FPF para cumprir quotas de participação de certos clubes – um bocado à maneira do número mínimo de mulheres na AR e nos altos cargos públicos. E se assim é tal pode significar que Carlos Queiroz não é tão imune a influências externas à Selecção com quer fazer querer. Quase no fim, ainda com o jogo na mão, o novo seleccionador fez entrar o ‘super rato’ do Sporting – que é pouco mais de metro e meio de bom jogador mas só e apenas isso – em vez de meter um colosso de força como é Bruno Alves, que bem jeito teria feito no meio dos postes dinamarqueses. E eles marcaram… Meu Deus! Ao que eu cheguei! Explicar com futebol a génese do meu mau feitio! É o que dá viver num país cheio de expectativas e de horizontes que chilreiam... Não prometo tentar melhorar – mas pode ser que aconteça (se me sair o euromilhões, por exemplo!...). nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista
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Gosto imenso das suas crónicas. Não me canso de ler.Divertidas, inteligentes, audazes.Queria que soubesse.
[12-10-2009] | borboleta
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