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Crónicas
Os Filhos de Ninguém[29-05-2009] | Carlos Amaral Dias
Digamo-lo sem grandes rodeios: uma boa parte das políticas actuais destinam-se a promover a generalização, a padronização e a vitimação do sujeito. Esse é sem dúvida o discurso dominante face ao qual o discurso psicanalítico nada tem a contrapor, excepto a proposta de o furar.
As declarações de Dulce Rocha ao Diário de Notícias de 22 de Maio colhem a minha total aprovação. Aprovação tanto mais consubstanciada quanto eu mesmo trabalhei numa área dominada pela patologia da toxicodependência em jovens em risco. Não pude deixar de trazer à memória um período de onze anos da minha actividade profissional, durante os quais intervim activamente na clínica e nas práticas sociais ligadas ao consumo de drogas.
Mais de vinte anos me separaram hoje desse tempo e dessa experiência que determinou grande parte da minha própria história como profissional. É portanto num outro tempo, e quiçá com outra distância, que irei propor a introdução da leitura psicanalítica como crucial na compreensão das patologias de risco. Certo é que a premissa de que parto caminha em contra-mão de uma certa lógica contemporânea, regida pelo discurso normativo. Neste, o que conta são as práticas orientadas para enquadrar o sujeito no que diz respeito a uma categorização geral e anti-idiossincrática. Digamo-lo sem grandes rodeios: uma boa parte das políticas actuais destinam-se a promover a generalização, a padronização e a vitimação do sujeito. Esse é sem dúvida o discurso dominante face ao qual o discurso psicanalítico nada tem a contrapor, excepto a proposta de o furar. Furá-lo, porém, não significa deconstituir projectos de reinserção e reintegração que dizem respeito às situações de grave risco psicossocial, mas, pelo contrário, através do diálogo com outros profissionais, sustentar uma interrogação diversa que não desconsidere a importância dos sistemas judiciais e das ciências sociais. Para que serve então o furo que a Psicanálise pode introduzir no sistema? Diga-se desde já que não há uma resposta simples para esta questão, já que aquele que se arrisca à posição de psicanalista, submetido a solicitações institucionais, revê-se na forma como lhes responde, ou seja, avaliará a ideia que ele faz da Psicanálise. Trata-se de uma forma de Psicanálise aplicada, mas que sustenta o acto analítico para além do trabalho individual. Aí, o analista é responsável pela presença do discurso analítico no laço social. Proponho, aliás, o termo analista-cidadão para designar o psicanalista que responde à chamada que lhe é feita, pronunciando-se activamente sobre os acontecimentos do seu tempo ou nas instituições onde trabalha. O analista-cidadão terá de ser, sem dúvida, um analista sensível às formas de segregação contemporâneas e entender qual a função que agora lhe corresponde. Essa função, a nosso ver, é simples de definir e complexa na sua operacionalização. Transformar os sujeitos institucionais objectos de tutela, considerando-os nas suas particularidades e nas suas peculiaridades na relação com o outro. Fundamentalmente, não se trata de propor um saber novo ou um saber diferente, mas uma atitude que provém da própria escuta psicanalítica. Nesta, o fundamental é a capacidade de gerar ignorância e, por aí, atribuir saber ao sujeito que nos fala. Ao propor institucionalmente um ângulo de visão marcado pela recusa do lugar de quem sabe sobre o outro e sobre aquilo que lhe causa, o psicanalista abre a via do percurso. nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista
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