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Crónicas

Cigarro mal fumado

[19-08-2009] | Madalena Palma
Somos injustamente cruéis a julgar os outros, quando na verdade merecíamos era um belo par de estalos.
Hoje na esplanada depois de um belo jantar na companhia de uma das minhas amigas observávamos um puto que não teria mais do que 14 anos a pseudo fumar um cigarro. Nem o sabia segurar, o cigarro claro porque o resto nem me atrevo a imaginar. 14 anos. Ouviram (leram) bem? Logo as duas condenámos a atitude. Ao fim e ao cabo é apenas uma criança a entrar na adolescência que não sabe quem é quanto mais o que faz.

É triste, mas mais triste é verificar a injustiça do julgamento que ambas fizemos.

Eu comecei a fumar aos 14 anos. Aquele miúdo cheio de borbulhas, calças descaídas, a fingir que era grande, estava a fazer a figura que eu fiz na idade dele. E a mim também me condenaram obviamente, mas a mim pouco me importava isso. Tal como ele se estava pura e simplesmente a lixar sobre as razões da nossa conversa ou do nosso olhar castigador. Senti-me mal. Senti-me triste. Logo na nossa conversa aquele cigarro mal fumado deixou de existir e discutíamos a incoerência dos julgamentos e a nossa falta de capacidade nata de nos colocarmos no lugar dos outros e nos revermos nas mesmas situações.

A minha primeira relação sexual foi aos 15 anos. Hoje, não imagino sequer que os meus filhos possam ter a mesma atitude iniciando a vida sexual tão precocemente. Mas eu pude e eles não podem porquê? Os tempos são outros é a desculpa confortável que todos arranjamos, mas o que é certo é que temos mais medo pelos outros do que por nós mesmos. É mais fácil assim, dormimos mais tranquilamente pensando que os protegemos. Somos uns hipócritas. Sim, somos todos. Porque condenamos nos outros aquilo que não somos capazes de rever em nós. E fazemo-lo com uma facilidade assustadora. Na maior parte das vezes sem pensar sequer. A conversa estagnou. Parou como que no ar, quando os miúdos saíram da mesma e deram lugar àqueles que a idade lhes dá direito de saberem o que dizem e o que fazem. Homens feitos que ocuparam o lugar daqueles que tinham menos 15 anos. “que bem localizados que ficámos, daqui não saio mais esta noite”, foi o que ouvimos. Olhámos uma para outra e quase sem falar nos levantámos ao mesmo tempo sem sequer olhar para o lado. Aqueles já não têm nada para aprender, são casos perdidos. Os outros pode ser que se façam ainda, homens e mulheres que anos mais tarde estejam sentados onde nós estávamos.


Olhando bem para as coisas pode ser que afinal um cigarro aos 14 e uma queca aos 15 não façam assim tão mal.
nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista

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Comentários

Mas....até à parte do piropo poderia ser eu a escrever este texto....as datas batem certo e já tive pensamentos semelhantes. Além do facto de estarmos agora noutra posição (a de pais e protectores) quando vejo o meu filho (18 anos) que vi este verão dar as primeiras passas, acho mesmo que o mundo mudou (e as opiniões e medos, dos pais e dos filhos, também). O tabaco, na altura, era um elemento "quase" inofensivo de sedução e prazer. O sexo, só obrigava a cuidados especiais para evitar indesejáveis gravidezes...o que a abundante bibliografia sobre o assunto nas prateleiras da sala, proporcionava a escolha dos mais variados métodos. Todos eficazes...ou nem sempre. Eram por isso prazeres mais acessíveis, porque menos perigosos.


[29-08-2009]  | Jorge

AEQ, exacto :-)
Lívia, inteiramente de acordo.


[19-08-2009]  | Madalena Palma

Compreendo a Madalena perfeitamente, incomoda-me imenso as pseudo-intenções imediatamente declaradas como se uma mulher fosse artigo de exposição e a base de licitação o piropo desinteressante. E há tantas coisas interessantes que um desconhecido pode dizer a uma desconhecida numa esplanada, até mesmo sem falar, Mas primeiro convém perceber se a mulher em questão está para ser abordada, é a ignorância deste 1º passo que não acho piada nenhuma.
Se calhar julgamos o cigarro porque sabemos mais do que sabíamos quando o fumávamos, bem como sabemos gostar mais de nós e como temos filhos...


[19-08-2009]  | Lívia Babo

Então sempre foi a «atitude de parelha minúscula de pseudo-predadores» (acho que gostei de frase!). Assim de facto só havia uma saída, claro...


[19-08-2009]  | António Eça de Queiroz

AEQ, a forma como posicionaram as cadeiras como se estivessem a iniciar um ritual de acasalamento ou como se fossem assistir à final da Liga dos campeões com a sua equipa.


[19-08-2009]  | Madalena Palma

Claro que não, Madalena. Mas agora diga lá porque acha que os posteriores ocupantes do tal 'posto de observação' seriam inevitavelmente «casos perdidos» que «já não têm nada a aprender»?... O que os identificava de forma tão sumária? A roupa?, a atitude de parelha minúscula de pseudo-predadores?, um qualquer tom alarve? Percebo o movimento, e até o enfado, mas não haverá também aí um pouco do que se queixava antes?
Desculpe o desabafo de quem perdeu (quase) totalmente a capacidade de julgar alguém num curto relance...


[19-08-2009]  | António Eça de Queiroz

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