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Crónicas

O silêncio de férias

[29-08-2009] | Leonor Barros
A praia em Agosto fornece material que daria para escrever um romance de um só dia, um Ulisses de calções, peripatético pelo areal ao encontro de aventuras. Mas falando, falando muito, falando alto com a sua companheira/namorada/mulher (riscar o que não interessa), prescindido do pequeno-almoço de rim para adoptar umas portuguesíssimas conquilhas ou amêijoas sorvidas naturalmente. Alto. Muito alto.
O português é um rapaz que gosta de se ouvir. Gosta de se ouvir e gosta que o ouçam. Uma ida a qualquer lugar ou evento, exceptuando-se funerais e alguns eventos culturais e ainda quando se ouve fado, implica necessariamente verbalizações ferozes e sonoras, crianças que se chamam aos berros, se repreendem aos berros, conversas ao telemóvel ouvidas por todos os presentes e debitadas sem qualquer pudor ou incómodo, igual o assunto, chamadas de atenção ou apenas conversas. E conversa-se, conversa-se muito, fala-se sem descanso. Diz que é saudável. Há que desabafar. Há que deitar tudo cá para fora. Alto. Muito alto. E porque Agosto é mês de férias e descontracção, as vozes parecem elevar-se mais. Se tivermos em conta a taxa de ocupação da praia em Agosto prevê-se uma imensa conversa ininterrupta, vozes que se alternam e cruzam como um bruá constante. Um burburinho sonoro incessante.

Num dia de sol exuberante em pleno Agosto estendi a toalha na clareira possível. Em redor um homem jovem sozinho, um casal de meia-idade, um grupo de adolescentes e um casal com uma outra mulher e três crianças. Só soube da existência do casal de meia-idade porque os vi quando cheguei e os voltei a ver quando fui embora. Exactamente na mesma posição: ela estendida ao sol rendida à carícia do astro-rei, ele lendo um livro à sombra do chapéu. O homem jovem estava a falar ao telemóvel quando cheguei, alto, naturalmente. Se se vai para a praia sozinho e com telemóvel à mão não há necessidade de nos debatermos com a solidão do oceano e do sol inclemente. Muito menos do silêncio. Que se telefone naturalmente. Que se telefone muito. E alto.

As crianças ao meu lado teriam passado despercebidas. Ouvia-as e sentia-as em brincadeiras inocentes bem perto de mim. Apenas o ruído necessário, e saudável, entre pás e areia. As crianças teriam passado despercebidas, caso os adultos não as tivessem perdido de vista quando foram ao mar e não tivessem berrado furiosamente pelos seus nomes Ó Fábio! É pá, estes gajos! Ó Fábio! Quando o Fábio voltou ouviu a reprimenda habitual, que não se faz que não pode ser, olha a Maddie, e se se perdessem? Alto naturalmente. A praia ficou a saber que, por exemplo, aquela mãe extremosa usava o caso da criança inglesa desaparecida no Algarve como uma ameaça e a praia também ficou a saber que, por exemplo, a mãe trata as crianças carinhosamente de cabrões. É pá, estes, cabrões não param quietos. Alto. Muito alto.

A praia em Agosto fornece material que daria para escrever um romance de um só dia, um Ulisses de calções, peripatético pelo areal ao encontro de aventuras. Mas falando, falando muito, falando alto com a sua companheira/namorada/mulher (riscar o que não interessa), prescindido do pequeno-almoço de rim para adoptar umas portuguesíssimas conquilhas ou amêijoas sorvidas naturalmente. Alto. Muito alto.
nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista

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Comentários

Adoro a palvra "guinchar", António. De facto somos muito guinchadeiros, o problema é o excesso. Se fosse uns decibéis abaixo dava jeito e ninguém ficava a saber da vida alheia.


[01-09-2009]  | Leonor Barros

A insegurança dos povos meridionais, não? Em Espanha é tudo aos gritos, e a Itália, embora cantarolando, guincha toda com proverbial ânimo (vivam os neo-realistas italianos!)


[29-08-2009]  | António Eça de Queiroz

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