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Coordenação: Vítor Coelho da Silva
Crónicas

Saberão as elites usar um alicate?

Há dias em que um programa qualquer do meu ADN faz com que expluda para dentro. Largando agora os miasmas da detonação emocional interna, guardados dois dias numa câmara opaca, declaro que, em consonância com o tetraplégico drama existencial português que diariamente nos surge despejado na Imprensa, muitos dos cronistas e editorialistas que a produzem são uns enormes chatos, uns tremendos duns tautológicos e em alguns casos irremediavelmente semelhantes ao núcleo formal da sua denúncia.
Há uma inércia, a bronquidão coeva, corrupção rapsódica – há tudo o que de mau se queira no vasto breviário das misérias seculares do maternal torrão... Há tudo isso, claro, e em doses que por vezes irritam, mas é apenas a massa de que é feito qualquer ser humano.

A Inveja – trazida a lume pelo sempre insuspeito José Manuel Fernandes (JMF), que a considera mesmo um dos sinais da homogeneidade lusa – é realmente uma das más características nacionais que detectei em tempos de forma evidente. A coisa passou-se na Suíça. Falava com um responsável para a área dos trabalhadores estrangeiros, e perguntei-lhe como controlavam as chamadas cartas de trabalho. Tudo muito simples: os fiscais apenas actuavam sob denúncia; e, curiosamente, até tinha um caso desagradável entre mãos, dado tratar-se de uma mulher que denunciara a própria irmã... Era portuguesa.
Fiquei chocadíssimo, claro.
Sempre tive em boa conta a nossa emigração.

O Tempo foi-se encarregando de me mostrar coisas diferentes em momentos diferentes: afinal a mulher que denunciou a irmã aos fiscais suíços era apenas uma prima afastada dum tipo que há uns anos matou a sobrinha porque ela não lhe desviou a água para o seu campo no horário aprazado. Era apenas mais uma mulher bronca e reles – fruta rústica e bruta de séculos de penúria quase absoluta, para quem a possibilidade da manha e até do crime corre muitas vezes a par da sobrevivência imediata. Como acontece à maioria dos habitantes deste complexo planeta, afinal.

Mais tarde reparei também que, muitas vezes, as pessoas mudam. E mudam muitíssimo quando o passo é geracional. Para melhor.

Chegado aqui noto que JMF (provavelmente depois de ter digerido à pressa o ensaio Política e História de Portugal, de Vasco Pulido Valente) culpa enfim o todo do povo português – já que «somos demasiado iguais uns aos outros para que ideias diferentes concorram pelas melhores soluções».
Chama-se a isto desconhecer os portugueses. E quando digo portugueses não me refiro às cliques do poder umbigoso que JMF fatalmente frequenta (e há muitos poderes): refiro-me aos outros, aos criativos, do simples mecânico de vão de escada (Salvador Caetano começou assim, por acaso) ao moderno investigador em nanociências – para citar dois modelos bem distintos.

Aquilo com que os portugueses se dão verdadeiramente mal é com a imagem duma péssima e por vezes infame teia de leis (umas decalcadas da Europa, outras encomendadas por medida a escritórios de pardíssimas eminências), a que se soma uma execução próxima do idiótico – de tão errática e esbracejante que é.

A superficialidade do empenho das nossas elites..., elas preferem gabinetes irremediavelmente luxuosos, onde decidem negócios e trajectos pessoais, onde se banham no conforto tépido de um outro poder que afinal já quase não o é – mas que apenas parecendo ainda assim se mantém amável e relativamente descomplicado.
Nada de misturas com a ralé, supõe-se – quando o exemplo devia vir de cima.

Enquanto isso a política cai no que de mais vulgar este país possui: heróis por conta própria e talentosos vendedores de quase nada – que, como diz Medina Carreira, vampirizam OGE’s a troco dumas quantas piruetas na barra fixa.

Conhecemos o diagnóstico – estamos todos fartinhos dele.

As elites, no entanto, já não são o Povo. Destacaram-se dele por belas e esforçadas obras, e hoje são cidadãos do Mundo, cosmopolitas com muito mais que fazer. Não se imagina o que farão se um dia destes tudo desatar a correr realmente mal.

Saberão as elites usar um alicate?

 

No nosso caso basta morrer: as memórias já estão concluídas...

nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista

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Comentários

Eu tenho quase a certeza que não sabem: as torres de marfim não têm defeito - logo o alicate é apenas um bem pouco ilustre desconhecido. Vivemos por blocos sociais, como na Teoria das Mónadas, de Leibniz: só se contacta o imediatamente inferior, ou superior... Não há tempo para pensar Humano - a não ser quando interessa à estatística ou à mediatização.
Não acredito que a coisa mude, a não ser que seja obrigada a tal...


[28-08-2009]  | António Eça de Queiroz

Se as elites não sabem usar alicate, estamos mal. Ter-se-ia que perguntar o que é uma elite. Julgo que não passa, o conceito, por um grupo de gente que manuseia poder e dinheiro, muito menos pelos que aparecem. Elite é mais que poder e dinheiro, mais que fotos nos media. Talvez os que manuseiam o alicate possam ensinar aos senhores das grandes decisões, o que é ser-se HUMANO. Não sei, são cá coisas que me passam pela cabeça!


[28-08-2009]  | Paula Capaz

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