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Crónicas
Nem horrível nem belo[08-09-2009] | António Eça de Queiroz
Há mil e um miseráveis no Porto. Pairam à volta, bem à vista. A propósito deles lembrei-me dum episódio longínquo em que fui obrigado a intervir muito a contragosto.
Tinha de apanhar um autocarro que me deixaria à porta do mecânico. Quando cheguei à paragem havia uma mulher de meia-idade que esperava, a que se juntou depois uma outra, mais jovem. Momentos depois apercebi-me que um miúdo falava, em tom baixo, quase confidencial, com a segunda mulher. Dos seus quinze anos, muito direito, de óculos grossos de massa, vestia calças cinzentas e camisa branca – farda comum nos miúdos que vivem em instituições de acolhimento.
A mulher respondeu-lhe em brasileiro: também não tinha dinheiro. O miúdo insistiu. E a mulher também...
O discurso que se seguiu, numa voz incrivelmente agressiva e ameaçadora, foi este:
– Vens para aqui roubar o trabalho dos outros e não dás nada? É, minha puta de merda? Vai para a tua terra!...
Enquanto vociferava deste modo subia o peito para a mulher, que já assustada se tentava afastar a todo o custo daquele delinquente em potência. É claro que só me restou agarrar-lhe pelo pescoço e aconselhá-lo a desaparecer – coisa que fez depois de me medir bem e lançar um olhar onde brilhavam mil navalhas. Tenho uma relação muito ambígua com a mendicidade. Por norma reajo friamente face à lamúria pedinte e não é o desprezo que me move – porque tudo o que é lamentável apenas me entristece. A razão é muito mais material e, por ágil subterfúgio, serve-se do fatal preconceito que leva a escolher os poucos «que merecem» dos muitos que nem por isso – uma imensa maioria. A idade é fatal: os novos ficam fora da minha parca generosidade. Caso ganhem o hábito de insistir de cada vez que me vêem, então posso chegar a ser desagradável. No entanto já dei por mim, várias vezes, a deixar uma moeda a um miúdo que toca acordeão e tem um canito que se põe em pé com o copo das esmolas entre dentes. Havia ali empenho, talvez algum investimento... E a música, o cão... E o miúdo – é claro. Há um caso que me enerva particularmente – arrumando-se já numa caixa selada os infindáveis arrumadores em dia de futebol: trata-se dum sacana dos seus vinte anos, de caveados e jeans à pirata, gandas óculos escuros e telemóvel de 3Gb (segundo informou o meu filho). De porte quase atlético (a pose é), imiscui-se no tráfego do supermercado local tentando impor (apenas às mulheres sozinhas) ajudas que ninguém realmente quer. Como pequena contrapartida a esta minha aversão à pedinchice generalizada surgem os poucos «sortudos» que levam qualquer coisa: os velhos ou aqueles que apresentam uma condição física que de alguma forma me toca. Cheguei a ter uma pedinte «minha». Era uma velhota ainda em bom estado que me fazia lembrar alguém que conheço bem. Este mimetismo emocional e a sua insistência conformada conformou-me também. A miséria é um sítio igual a muitos outros. Mas em mais feio. nota: os textos são da inteira responsabilidade do cronista
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